Sabe o que eu acho engraçado? É que temporada passada tavam todos comentando da hipermagreza da Barbara Berger. O que parece é que todas as outras modelos resolveram seguir o exemplo. Não entendeu? Com ajuda da Folha, vamos fazer uma linha do tempo para compreender melhor os ocorridos:
20/janeiro:
Moda tem que parar de sacrificar modelos – por Alcino Leite Neto e Vivian Whiteman
20/janeiro:
Hipermagreza domina passarelas da SPFW – por Nina Lemos e Fernanda Mena
21/janeiro:
SPFW faz alerta sobre magreza a outras semanas de moda – por Alcino Leite Neto
22/janeiro:
Moda esqualida
23/janeiro:
Evento tem poucas respostas para apelo
FERNANDA MENA
DA REPORTAGEM LOCAL
Dois dias após enviar uma carta alertando os principais atores da moda internacional sobre a hipermagreza atual das modelos, a organização da São Paulo Fashion Week obteve, por enquanto, poucas respostas de apoio.
O evento recebeu e-mails da revista “Vogue” francesa e do fotógrafo Nino Muñoz, um dos preferidos de Gisele Bündchen. A editora da “Vogue” americana, Anna Wintour, não escreveu diretamente à SPFW: encaminhou o alerta de Paulo Borges ao Conselho de Designers de Moda da América, que convidou o empresário para uma conferência sobre a saúde das modelos, em Nova York.
A carta da SPFW propõe um esforço conjunto para minimizar a onda de hipermagreza “e seus efeitos na indústria e na sociedade como um todo”.
Para Borges, diretor da SPFW, é preciso apoio internacional, já que as modelos passam a maior parte do ano trabalhando nos EUA e na Europa e importam de lá o padrão radical de magreza.
A “Vogue” americana seria a publicação mais influente para esse processo. É a única revista de moda de renome internacional que se recusa a publicar imagens de hipermagras. “Wintour já conseguiu acabar com a onda “heroin chic”, das modelos com cara de “junkie” nos anos 90″, diz Borges.
Há quem duvide do poder que vem de fora e ache que as mudanças devem começar no Brasil. “Paris não vai ajudar em nada. O Brasil tem força para resolver isso por aqui”, afirma o estilista Marcelo Sommer.
A crítica de moda Gloria Kalil discorda. “Esse tipo de ação precisa ser internacional. Nunca foi exigência brasileira ter varapau na passarela”, diz. “Para dar certo, tem que perseverar. Criar campanha de uma vez só é fogo de artifício.”
A SPFW criou em 2007 uma campanha de esclarecimento para modelos sobre problemas alimentares. Na mesma época, passou a exigir atestado de saúde das garotas. Por que, então, agora desfilam modelos com “magreza severa”, na classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS)? “Todas continuam apresentando atestado. Se não estão bem, temos de questionar o sistema de saúde do Brasil”, justifica Borges.
“O mercado todo tem de se reeducar. Se a magreza não entrar num desfile, mas continuar na publicidade e nos editoriais, não adianta nada”, diz André Hidalgo, diretor do evento Casa de Criadores.
Desconforto
Na SPFW, o assunto da magreza radical gerou desconforto. Equipes de TV dizem ter sido proibidas de entrar em alguns camarins para fazerem reportagens sobre o assunto. A assessoria de imprensa da SPFW nega que tenha havido restrições.
A organização do SPFW reteve a credencial de um fotógrafo da agência de notícias France Presse até que ele deletasse fotos feitas nos camarins dos desfiles, alegando que continham imagens de seminudez. A Folha viu as fotos e elas revelam, sobretudo, flagrantes da extrema magreza das modelos.
Borges destaca a responsabilidade da mídia. “A imprensa massacrou a modelo russa Karolina Kurkova em 2008, chamando-a de gorda. Fernanda Tavares até hoje sofre as consequências de uma reportagem de 2002 que falou de sua celulite. Foi cruel.”
No empurra-empurra do mundo fashion, quando assunto é magreza, a culpa parece ser sempre do vizinho. Entre o padrão esquálido das passarelas e a epidemia de obesidade fora dela, mais fácil dizer que os culpados somos todos nós.
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Fiquei feliz que a polêmica da vez seja essa, não pela utopia de que o padrão vá mudar mas porque tudo na vida tem limite. Claro que eu, como a maioria, tem momentos de Carine Roitfeld e quer é ver costelas nas publicações ou como um IMC pode conseguir ser incrivelmente baixo e a menina ainda conseguir continuar de pé. Mas repito: tudo na vida tem limites. Uma coisa é a Lara Stone de biquini e outra coisa é o braço da Bruna Sotilli.


Lara tomando sol no começo do ano e Bruna desfilando o inverno 2010 de André Lima: a linha tênue entre corpo esbelto e esqualidez lado à lado.
O estopim do último SPFW foi exatamente esse: extrapolaram os limites. E como deu para perceber em todas as matérias da Folha, os culpados continuam implícitos, jogando um a batata quente pro outro. Enquanto isso, quem mexe com modas sabe que o padrão europeu é esse e que as meninas que trabalham fora passam por esse tipo de pressão. E que a maioria – maioria, não todos – dos estilistas locais gostam de encontrar as moças secas. É como se estivessem sido poupados do trabalho de mandá-las emagrecer. Não é de graça que dentro de um casting as com menos massa corporal sejam as mais disputadas.
Outra coisa que eu acho engraçada é que no meio tempo brotam “internvenções” com as “gordinhas” (Monica Lucas faz um bom paralelo sobre isso aqui). Desde a matéria sobre plus size models na Glamour americana – que deu o que falar – até a última V Magazine inteiramente dedicada ao tema e com tiragem esgotada nos EUA. Os dois editorais que revelam modelos G geraram tanta mídia espontânea que ficou difícil encontrar blog de moda que ainda não tenha publicado as imagens de Curves Ahead e One Size Fits All. O último, inclusive, quebra o tabu que muitas roupas não tão bem em moças acima do peso quanto nas franzinas ao colocar a chubby Crystal Renn ao lado da new face Jacquelyn Jablonski.
Sabe o que é irônico em tudo isso? Exatamente o que eu comentei no post da Mônica: que acontece na realidade é que muitas mulheres quando vêem modelos GG (ou 38/40) nas revistas acabam sentindo repulsa. Aquele pensamento de que “nunca ficar desse corpo” vem logo à cabeça, dando continuidade cultura da ampultação, sempre preferindo as “sem barriga”.
Por exemplo, o biotipo como o da Mulher Melancia não tem nenhuma ligação com a idéia de elegância. Não só pela atmosfera sexista pelas pelas curvas não teram a versatilidade de corpos com o da Barbara Berger, que pela magreza percorre inúmeros públicos e incorpora diferentes identidades das marcas. Quanto mais camaleônica uma modelo for, mais campanhas/desfiles/editoriais faz e, consequentemente, maior o sucesso. Sutís gordurinhas não entram na fórmula ao contrário físicos anoréxicos.
Resumo da ópera: mulheres e meninas continuarão querendo não ter barriga, coxas e afins baseadas no quem vêem na mída. Fato irrefutável. Modelos plus size também continuarão sendo vistas como freaks, não como exemplos de autoestima. Então por que não optar por Laras, Trentinis e Isabelis ao invés de Brunas e Barbaras? Por essas e por outras que admiriei muito a atitude do Paulo Borges.