Publicado por: Clarissa Machado | janeiro 27, 2008

Galeria Melissa + Vivienne Westwood

A inversão dos fatores não alteram a soma. Por isso não faça muita diferença se introduzirmos com Dame Westwood. Afinal, a Galeria é apenas um mero receptor de suas obras.
Não-residentes em São Paulo como eu lêem notinhas sobre uma exposição de trajes da Dama do Punk na tão falada Galeria Melissa e imagina logo a grandeça do acontecimento. No meu romantismo visualisei um corredor com as peças anarquicamente instaladas, de forma a emocionar o observador. Acredito que minhas expectativas não ultrapassaram a linha do Equador a ponto de serem irrealizavéis. O que poderia ser uma mostra decente de uma das melhores estilistas (e mais revolucionárias) do século XX para uma gigante calçadista que investe tubos de dinheiros em pesquisa com consumidores adolescentes?
Não estou reclamando de barriga cheia mas deparar com apenas cinco looks é frustante. É inversamente proporcional a todo o alarde feito. Quatro looks jogados no canto da loja, ao lado das telas com propagandas incessantes da marca. O “melhor isso do que nada” não colou muito. A edição leva um ok por compactar no quarteto de manequins uma seleção de roupas que é a cara de Vivienne. Fora isso, o que os marqueteiros da Grendene esperam? Que a consumidora Melissa veja aquele xadrez e inconscientemente agregue valor a um sapato de plástico? O objetivo final nunca foi outro e nem poderia. Sendo que foi mal aplicado. E justamente em um território que eles deveriam ter todo domínio: a própria loja.
Quanto as peças em si, minha preferida é o vestidão couture com corselet armado e que já faz parte do figurino do longa Sex and the City sendo que em uma versão noiva, especialmente para Carrie, claro. Ah, e os botons? “Referência punk”. Digo, há trinta anos atrás.
Foco no chapéu napoleônico. Não só tem a cara das criações oitentistas de Vivienne como poderia muito bem ser usado pelos loucos de hoje. Candidatos não faltariam.

Após o prato principal, por que não uma sobremesa? Imagine seu doce favorito e transforme-o em letras. Primeira mordida vem agora.

Há sete anos reposicionada por nomes como Erika Palomino e tendo Paulo Pedó Filho na gerência conseguiu segmentar seu mercado de uma forma que não importa se vender apenas um exemplar do peep-toe com Swarovskis salpicados. A pareceria com os cristais austriacos estaria selada. Isso que importa.

Como todos sabemos, toda a segmentação de mercado não somente fez o plástico ter peso (e preço) de couro. As sandálias foram varidas de sapatarias populares rumando apenas para pontos de vendas selecionados que atinjam ninguém menos que a juventude Melissa e opta cegamente por semanas e feiras de moda. Convenções calçadistas? Nem pensar.
Para as campanhas fica a cargo da Casa Darwin. A agência composta apenas pela dupla Márcio Cócaro e Rodrigo Leão mostra que não é preciso mais do que isso para gerar desejos plásticos. A última, entitulada de “Viagens de Melissa”, assinada pelo diretor de arte Rodrigo Butori e pela produtora Yasuko Austrin, junta duas tendências: o mix global e surrealismo. Flecha certeira nas vontades da temporada ao colocar a cliente em um passeio etéreo por diversar culturas.

O produto e suas melhorias entraram para completar as manobras publicitárias. Para uma consumidora perfeccionista a personalidade está nos detalhes. Em muitos casos as formas se mantém para apenas mudar a cor de um solado ou acrescentar um ou outro adereço e pronto. Atualização certa. Vendas também. Claro que o derivado do petróleo ainda vai fazer suar, gerar alguns calos e ter duração limitada. Agora feito o exclusivo NeoFlex não só machuca menos o pé como também é reciclável e garante decomposição completa para não comprometer o meio-ambiente. Tudo para não ser alvo da ecomoda.

Livre que qualquer uniformidade visual, a Galeria Melissa jamais deixou de lotar aos sábados por ter duas caras. Ter o lado de fora com diferenças significativas comparando o que está dentro é um erro comum para varejos pequenos e medianos. Quem ver por fora nunca imaginaria que a equipe de marketing deixaria isso passar batido. Justamente por haver tantas cabeças pensando e pouca (ou nenhuma) conversa entre elas que resultou na baguncinha.


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