Há algumas semanas que tenho insights relacionados com a austeridade e moda. Repetidas vezes percebi um link entre ambos mas no final das contas nada de concreto se afirmava. Até que um dia zapeando o Face Hunter encontrei a seguinte imagem:


Minha reação instintiva foi:
“Opa, esperaí! Esse look saiu do inverno 2008 do Marc Jacobs, não?”. Como persona desprovida de WGSN, a confirmação que precisava estava aí. A onda de rigor, formas simplificadas, atitude vazia e técnica impecável retornava ao lar. Boa parte da seriedade descende da crise americana narrada com um certo tom apocalíptico de proporções globais. Disciplina vira comportamento de consumo, esse hiperconsciente. Afinal, a indústria não vai deixar o lucro de lado, mesmo em tempos de turbulência.
Na prática, o austero se se metamorfoseia em minimalismo, com direito a cartela de neutros (beges, cinzas e azuis), construção da silhueta de cima para baixo dando destaque a parte superior seja com acúmulo de tecidos, cachecóis ou lenços. Também se insere a estruturação da roupa com base na arquitetura, opção que vem sendo utilizada já nas últimas cinco temporadas para compor a figura feminina. Peça-chave? Calça, claro.Simboliza toda a sobriedade pedida.
Quem fez:
nomes relevantes que optaram pelo neominimal no inverno 2008




Síntese de tudo que já foi dito acima. Além de instigar o nascimento esse post, MJ resumiu em cerca de 40 looks o zeithgeist invernal que vai até 2009. Por mais que ele já tenha mencionado que não teve muitas inspirações para a estação, que só projetou uma imagem de calmaria, com glamour e casulidade todos nós sabemos que a rigidez dos ombros e os adornos de cabeça não estava aí de graça. Ambos são oriundos do que MJ encontrou nas mulheres quando chegou em NY, no começo dos anos 80.

Complementando com joalheria com nuances art-decó, tons pastéis e os já desejados pulsos bordados que apontam onde estará o luxo: nos detalhes. Ah, e um pouco de fluidez decotada para as que não acham que mulheres com traços masculinos emanam sexy appeal o bastante.




O homem, o mito. Se
há um ano atrás ele fez o globo inteiro
amarrar lenços em volta do pescoço, o que poderiamos esperar agora? No mínimo, a verdade crua e vestida de latéx. “I wanted something austere”, declarou à
Tim Banks, da Style.com TV, no backstage da Balenciaga. Um pouco de drama espanhol (mais uma vez, o futrico nos arquivos de Cristobal), algumas referências noir como o francês Les Diaboliques e a refência sci-fi com um pé no futurismo que é a cara do Ghesquierè. Pronto. Éis que surgue o que o próprio chamou da “coleção mais Balenciaga de todas”.

Seja lá qual foi a headhunter que o colocou a frente da (ex-)maison, não poderia ter encontrado ninguém com mais genes bascos do que ele. A excelência de construir roupas circulares em volta do corpo pensadas arquitetonicamente ao invés de simplesmente criar peças retas com tecidos genéricos, resultando em looks minimals, retilíneos e com essência austera.




“When you are working on something simple, the surface is important. I wanted to do minimal, something that was feminine and strong—but in the end, not so sexy. And there are a lot of references to early nineties Prada in there.”, explica Miuccia, antes mesmo de especular porque abandonou as fadas e todo o lirismo do verão.




Trocando
um inverno pelo
outro, o balanço fica da seguinte forma: a renda de guipure suíça substitui o degradê, as barbanas dos sapatos ficam no lugar do salto vírgula e o cinza dá espaço pro caramelho e pro azul. Para 90% de marcas pequenas ao longo do mundo copiar Prada é garantia de venda. Então fique certo da volta do minimalismo à la anos 90, epidemia de comprimentos mídi e bolsas médias.




Ao assumir a YSL, Pilati foi criticadíssimo pelas semelhanças gritantes com o que já foi criado pelo próprio Yves e uso irrestrito das referências. Desde o
spring/summer ‘08 dava pra notar que o diretor criativo já havia compreendido por completo a marca, mesmo com os tão falados
colares e saias de estrelas. O inverno veio como o cala-boca elegante para os que ainda duvidavam que não haveria herderdeiro melhor para o legado de Saint Laurent.



O briefing da beleza que torna o rosto das modelos irreconhecível para despistar aqueles que só se importam com o desfile se o casting for bombado. Pilati ganha o troféu de autor da modelagem da temporada, a calça babana, que faz uma curva traseira até gradativamente se ajustar até o tornozelo. Também se apropriou do mesmo momento oitentista de Jacobs, gerando esse rigor yuppie.




Raf Simons conseguiu compor a mais minimalista de todas as coleções com alma austera. Os traços de rigor ficaram evidentes nas golas-conceito. É mais uma vez a arquitetura dando imponência à mulher executiva de Jil Sander.



Simons, oriundo do menswear, não poderia deixar de injetar alfaitaria até nos vestidos retos de tweed texturizado e afeminar o terno, os colocando sob skinnies. Saltos irregulares se transformam na pitada de ironia para a mulher que precisa estar segura, no comando e pisando firme.
Como se não bastasse todas as confirmações de passarela sugeridas, ainda encontrei um editorial que saiu da W de junho. Entitulado de
Dry Session, Craig McDean fotografou o styling preciso de Alex White, que escolheu à dedo peças que são a cara da austeridade, incluindo entre os looks todos os nomes citados aqui.










[...] diferença, como reafirmou Luigi do About Fashion. O que sobra? Viver num repeat globalizado? Reabraçar o minimalismo? Ou simplesmente aceitar que o Y seja o novo X? Parece que mesmo com esclarecimento, confirmismo [...]