cara do abuso


a dor e a delícia de produzir
Novembro 11, 2008, 9:26 am
Arquivado em: moda local, opinião | Tags: , , ,

dave-yoder9

Quem jura que a desatualização é proposital logo se engana. Depois de vida dupla de universitária e redatora/reporter do Profissa tive a oportunidade de retornar ao mundo da produção de moda. Pegar peças por consignação, esperar gerente falar com dono de loja, levar “nãos”, entupir o carro de sacolas ad infinitum, organizar looks mentalmente e ser ágil na hora das fotos é bem mais cansativo do que me lembrava. Quanto mais trocas de roupa, mais mortos ficamos no fim do dia e nem sempre o resultado final recompensa todo o trabalho. O fotógrafo pode não ser lá essas coisas (sem falar no tratamento), o editor/dono da marca (caso seja campanha) pode inventar coisas absurdas na hora, mudando completamente o que foi combinado.

Briefing é o tipo de lei que todos adoram desrespeitar. O coitado do produtor, inseguro, despreparado para a bipolaridade de quem está em comando, fica doidinho. O pior é que nem todas as mudanças repentinas são para o bem. Muita opinião e pouco conhecimento de moda são os maiores vilões. Pior ainda é quando tem gente do marketing no meio. “Mostrar o produto” é palavra de ordem. A imagem pode não transmitir nada para o público, mas o produto quem que tá alí, gritando na foto. Assim não tem produção que dê jeito. E o que seria uma direção de arte bacana acaba se resumindo a segurar e carregar objetos.

De tanto apanhar dos que te contratam e depois querem fazer seu próprio trabalho, a gente aprende a impor nossa opinião, deixando sempre claro que sabemos o que é melhor para cada situação. Tudo é o modo de falar, esse, quase persuasivo. Um amigo me ensinou o truque do “Mas você não acha?”. Um “Mas você não acha que ficaria melhor de tal forma?” não só te dá 90% de chances da pessoa concordar como também de parecer que a idéia inicial foi dela. Caso ela caia nos 10% descordantes, jogue o “Na minha opinião como profissional” com feições bem imponentes, quase austeras. Duvido que não dê jeito.

Outra desvantagem é conviver diferentes toda vez. Há quem veja isso por um bom prisma, pois gera contatos para futuros trabalhos e assim por diante. Particularmente, sou movida pela necessidade de gerar vínculos ao fazer o que gosto como também trabalhar junto de gente bacana. Soa ingênuo, até porque vou conviver com todo tipo de criatura nesse mundo e não posso tá exigindo que todo mundo tenha atitudes ótimas e esteja de bom-humor 24h por dia. Porém, dá de cara com “chefe” esnobe e que te menospresa não é nada agradável.

Pior são os que não respeitam quem não chega-chegando. Poucos dias atrás fui para uma reunião para definir uma campanha de underwear masculina. Mesmo tendo um conhecimento prévio da marca (pesquisar antes sobre é essencial) levei na calma, para sentir o que todos desejavam. Perguntei, ouvi e, como era de se esperar, não havia muito o que opinar. Se tratava de underwear masculina! E muitas das sacadas podem surgir no caminho, ao longo da busca atrás das peças. Levar óculos, regatas de algodão e calça jeans. E tanto o chapéu panamá como o óleo, camisas de botão e blazers foram rejeitados. Motivo: mostrar o produto. Inspirar-me na capa da última Vogue Hommes para dar um up na campanha foi uma idéia sem sucesso. Jamais sugeriria se não houvesse link com a identidade da marca. Falta de visão e… BOOM! Perde-se mais uma boa imagem. Depois reclamam que falta algo.

Como deu pra notar, produzir é onde mais se aprende em menos tempo. Tudo é regrado por uma série de normas que devem ser seguidas como máximas na vida de um produtor/stylist. O período maxímo de consignação é de 48h, tornando suicídio qualquer trabalho na segunda-feira (para esses, conte sempre com lojas amigas que emprestam coisas sem problema). Em editoriais de revista, o privilégio é dos anunciantes, que para o nosso infortúnio nem sempre tem as melhores escolhas. Aí a criatividade no styling vai ter de falar mais alto. Muitas vezes temos que tirar leite de pedra e fazer milagre com peças de modinha ou vestido de festas infelizes cheios de paetês, por exemplo. Na hora, parece que Murphy ataca e todas as lojas bacanas da cidade parecem não anunciar em canto nenhum.

Uma dúvida que sempre rola é a diferença de produtor e stylist. A maioria acha que é tudo a mesma coisa. Tudo burro de carga que leva-e-trás mercadoria e combina uma roupa com outra. Errado. Produtor cuida do cenário e afins, levando para a locação o que for necessário para complementar tanto o ambiente quanto o trabalho do stylist, que na teoria se restringiria a roupa. Poucas (e boas) são as que fazem questão de contratar stylist, produtor e ainda levar o estilista para acompanhar o nascimento da campanha. Melhor exemplo disso? A Dona Florinda. No site deles você pode ver o videozinho com todos os responsáveis pela geração das imagens, provando que quando que vale à pena investir e ter um trabalho excelente. Voltando ao meu caso, para evitar complicações e não perder oportunidades, acabo me chamando de produtora, mesmo querendo ficar só com o styling. No final, acabo carregando sacola do mesmo jeito. E morrendo de inveja de quem só escreve.


6 Comentários até o momento
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Ráa! massa a sitação, aliás muito justa. Pq aqui nós realmente nos preocupamos em contratar profissionais realmente bacanas para trabalhar com nosco nesse “parto” que é um catálogo, o nascimento de um filho. O trabalho de sTYLISTS, PRODUTORES, FOTÓGRAFOS, CAMAREIRAS, MAQUIADORES, MODELOS E TODA EQUIPE DE APOIO é importantíssimo, imprescindível para um bom resultado e DEVE sim

Comentário por melina mastroianni

continuando…
…ser valorizado!
Cá pra nós, pra mim, é a melhor parte !!!

bjos

Comentário por melina mastroianni

De volta…que bom!
bj

Comentário por Jane Mary

Perfeito!
Você tem que divulgar, informar, ser artístico, criativo… Todos os departamentos cobram alguma coisa de você. Mas fazer por você ninguém quer, né! Hahaha
E aí você tem idéias mirabolantes que ninguém entende e não dá confiança. E depois reclamam que falta algo. Falta originalidade.
Ai, que alívio! Me sinto compreendida!

Comentário por Nathalia

“Tirar leite de pedra”…me identifiquei muito com esse texto…

Muito bom seria se nos dessem a liberdade, equipe e materiais necessários para que o resultado final fosse igual ao que idealizamos. Uma pena que nem todos os empresários(…”Porém, dá de cara com “chefe” esnobe e que te menospresa não é nada agradável) tenham visão. Pena também que nem todo “público” tenha praparo pra entender a mensagem dos trabalhos…

Aqui isso é uma realidade, pois estamos num lugar que é pólo de confecção E NÃO DE MODA!!! Quase ninguém tem cultura de moda(inclusive entre os fashionistas, que acham que o “bagaço” é informação.

Quem continua nessa “vida’ é por ter paixão pela profissão!

Torço pra que num futuro não muito distante se entenda que produção não é luxo, é fundamental pra se chegar ao tão almejado sucesso nas vendas!!!

Comentário por Regina

ei, regina, disse tudo ó.

Comentário por Clarissa Machado




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